E aí Chico, o que você quer da vida?
Essa foi a pergunta da turma de expedição de um frigorífico em São Bernardo do Campo, por onde meu pai trabalhou por mais de 30 anos. Francisco, um pernambucano bem arretado, bravo e determinado, e que assim respondeu:
Ter meus filhos formados numa faculdade!
Talvez para você, esta resposta não lhe pareça utópica, não cria uma nenhuma distância com a sua realidade, mas para meu pai, na década de 70, o sonho se confundia com uma possível utopia. Tenho na memória seu olhar de medo frente a vários momentos de crises econômicas que assolavam o país e pressionavam negativamente às expectativas de um futuro melhor para a nossa família.
Pois quem poderia apostar num sertanejo vindo de uma cidade que ainda não constava no mapa, Serra Branca-PE, semianalfabeto e que ainda tinha a ousadia de querer muito além do que tinha na vida?
Ter banheiro do lado de dentro da casa já era um luxo, cursar uma faculdade, eram outros muitos quinhentos.
Hoje olho para o meu pai e tenho a consciência de que ele naquela época, era o que Greg Mckeown considera um essencialista. Nada tirava o seu foco, sua razão de viver era de dar um destino mais digno aos filhos do que considerava viver e merecer. Seus pensamentos, comportamentos, educação (muitas vezes severamente dura) e decisões, nos modelavam, querendo nós ou não, para o caminho da sua resposta dada naquela expedição.
O seu propósito tornou-se o nosso, ou pelo menos de dois dos três filhos, não podemos controlar tudo…
Aos trancos e barrancos, calamos aquelas velhas risadas da turma da expedição do frigorífico que ecoaram por anos na cabeça de meu pai. Eles não sabem, mas aquela reação serviu como força motriz para muitos momentos de desesperança.
Olhando para o agora, temos tantas facilidades e abundância, que muitas vezes nem damos mais importância aos sacrifícios do passado, às vezes, mal celebramos as conquistas do que um dia fez parte do sonho ou da utopia de alguém.
Vejo que não importa o sonho; o que importa é a distância entre ele e sua realidade atual e o que você está disposto a escolher e a renunciar em sua causa. Sonhos muito próximos da realidade, como por exemplo, comprar um celular, fazer uma viagem, são factíveis, parceláveis, exigem baixo engajamento, mesmo que te façam feliz. Podemos categorizá-los como objetivos, metas, desejos individuais. Estamos aqui tratando de outra dimensão, de transformação de realidades: novos sistemas familiares, sociais, públicos e organizacionais. A viagem só muda sua estrutura de memória afetiva e o seu feed do Instagram. Amamos, mas a vida não se transforma por conta disso.
Sinto que estamos perdendo a ousadia de transformar realidades, de quebrar padrões e de romper paradigmas. Gastando toda a nossa energia e vitalidade só reagindo ao mundo e na luta frustrante de pertencer ao que nem sabemos se desejamos genuinamente.
E você, tem clareza do seu projeto de vida? É capaz de suportar os ventos que soprarão contra você quase todos os dias, as risadas desacanhadas, os comentários tóxicos, a falta de apoio estrutural e emocional?
Então término aqui com a mesma pergunta que fizeram ao meu pai em 1974: E aí Chico, o que você quer da vida?
Espero que esta pergunta o incomode tanto quanto nos incomoda até hoje, e que ela ecoe dentro do seu cérebro até te transformar a ponto de você não reconhecer a nova vida que pode viver.
Pensar muda tudo!